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Quem Sou Eu?

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A segunda pergunta de Moshê a D'us na sarça ardente foi: Quem é você? “Então eu vou até os israelitas e direi: ‘O D'us de seus pais me enviou a você.’ Eles perguntarão imediatamente qual é o Seu nome. O que devo dizer a eles?”1

A resposta de D'us, Ehyeh asher ehyeh, erradamente traduzido em quase toda Bíblia cristã como “Eu sou Aquele que sou,” merece por si só um artigo (trato disso em meus livros Tempo Futuro e A Grande Parceria).

Sua primeira pergunta, porém, foi Mi anochi2, “Quem sou Eu?”

“Quem sou para que eu deva ir ao faraó?” disse Moshê a D'us. “E como posso tirar os israelitas do Egito?” Na superfície o significado é claro. Moshê está perguntando duas coisas. A primeira: Quem sou eu para ser merecedor de missão tão grande? A segunda: Como posso conseguir isso?

D'us responde à segunda. “Porque Eu estarei com você.” Você conseguirá porque não estou pedindo que o faça sozinho, Não estou realmente pedindo que você o faça, Eu farei por você. Quero que seja Meu representante, Meu microfone, Meu emissário e Minha voz.

D'us jamais respondeu à primeira pergunta. Talvez numa maneira estranha o próprio Moshê tenha respondido. No Tanach como um todo, as pessoas que terminam sendo as mais merecedoras são aquelas que negam ser merecedoras. O Profeta Yeshayahu, quando foi encarregado de sua missão, disse: “Sou um homem de lábios impuros”3. Yirmiyahu disse: “Não posso falar, pois sou uma criança”4. David, o mais notável rei de Israel, evocou as palavras de Moshê, “Quem sou eu?”5 Yonah, enviado por D'us a uma missão, tentou fugir. Segundo Rashbam, Yaacov estava a ponto de fugir quando teve seu caminho bloqueado pelo homem/anjo com quem lutava à noite6.

Os heróis da Torá não são figuras da mitologia grega nem de qualquer outra. Não são pessoa possuídas por um senso de destino, determinados desde cedo a atingir a fama. Eles não têm aquilo que os gregos chamavam de megalopsique, um senso do próprio valor, uma superioridade graciosa e usada com leviandade. Não estudaram em Eton ou Oxford. Não nasceram para mandar. Eram pessoas que duvidavam das próprias habilidades. Houve vezes em que estiveram a ponto de desistir. Moshê, Elijah, Yirmiyahu e Yonah chegaram a tamanho desespero que rezaram pedindo para morrer. Eles se tornaram heróis da vida moral contra a vontade. Havia trabalho a ser feito – D'us lhes disse isso – e eles o fizeram. É quase como se um senso de pequenez fosse um sinal de grandeza. Portanto D'us jamais respondeu à pergunta de Moshê: “Por que eu?”

Mas há uma outra questão dentro da pergunta. “Quem sou eu?” pode não ser apenas uma questão sobre valor. Pode ser também uma pergunta sobre identidade. Moshê, sozinho no Monte Horeb/Sinai, chamado por D'us para tirar os israelitas do Egito, não está apenas falando com D'us quando pronunciou aquelas palavras. Está também falando consigo mesmo: “Quem sou eu?”

Há duas respostas possíveis. A primeira: Moshê é um príncipe do Egito. Ele foi adotado ainda bebê pela filha do faraó. Ele cresceu no palácio real. Vestia-se como um egípcio, parecia e falava como um egípcio. Quando ele resgatou as filhas de Yitrô de alguns pastores maus, elas voltam e dizem ao pai: “Um egípcio nos salvou7.” Seu próprio nome, Moshê, foi dado pela filha do faraó8. Era, presume-se, um nome egípcio (de fato, como em Ramses, é a antiga palavra egípcia para “criança”. A etimologia dada na Torá, que Moshê significa “Eu o tirei da água”, nos diz o que a palavra sugeria aos falantes de hebraico). Portanto a primeira resposta é que Moshê era um príncipe egípcio.

A segunda foi que ele era um midianita. Pois, embora fosse egípcio por criação, tinha sido forçado a partir. Ele fizera seu lar em Midian, casara-se com uma midianita, Tsipora, filha de um sacerdote midianita e estava “contente por viver ali”, calmamente como pastor. Tendemos a esquecer que ele passou muitos anos ali. Saiu do Egito quando jovem e já tinha oitenta anos no início da sua missão quando pela primeira vez ficou perante o faraó9. Ele deve ter passado a maior parte da vida adulta em Midian, longe dos israelitas por um lado e dos egípcios por outro. Moshê era um midianita.

Portanto quando Moshê pergunta: “Quem sou eu?” não se trata apenas que ele se sente indigno. Ele não se sente envolvido. Ele pode ter sido judeu por nascimento, mas não tinha sofrido o fado de seu povo. Não tinha crescido como judeu. Não tinha vivido entre os judeus. Tinha bons motivos para duvidar que os israelitas iriam sequer o reconhecer como um deles. Como, então, pôde se tornar líder deles? Levando mais a fundo, por que ele deveria sequer pensar em ser líder deles? O destino deles não era o dele. Não fazia parte daquilo. Não era responsável por isso. Não tinha sofrido por isso. Não estava implicado naquilo.

E além disso, a única vez em que tentara intervir nos assuntos deles – matara um capataz egípcio que tinha matado um escravo israelita, e no dia seguinte tentara impedir dois israelitas de brigarem entre si – sua intervenção não foi bem aceita. “Quem fez de você chefe e juiz acima de nós?” disseram eles. Essas são as primeiras palavras registradas de um israelita a Moshê. Ele ainda não sonhava em se tornar líder e sua liderança já estava sendo questionada.

Considere, agora, as opções que Moshê enfrentou na vida. Por um lado poderia ter vivido como príncipe do Egito, no luxo e na indolência. Este teria sido seu destino se não tivesse intervindo. Mesmo depois, tendo sido forçado a fugir, ele poderia ter passado os dias quietamente como pastor, em paz com a família midianita na qual tinha se casado. Não surpreende que quando D'us o convidou a liderar os israelitas à liberdade, ele resistiu.

Por que então ele aceitou? Por que D'us sabia que ele era o homem para a tarefa? Uma pista está no nome que ele deu ao seu primeiro filho. Chamou-se de Gershon porque, ele disse, “Eu sou um estranho numa terra estrangeira10.” Ele não se sentia em casa em Midian. Era onde ele estava, mas não quem ele era.

Porém a verdadeira pista está contida num versículo anterior, o prelúdio para sua primeira intervenção. “Quando Moshê estava crescido, ele começou a ir até seu próprio povo, e via seu trabalho duro11.” Essas pessoas eram seu povo. Ele pode ter tido a aparência de um egípcio, mas sabia que não era. Foi um momento transformador, não diferente daquele em que a moabita Ruth disse à sua sogra israelita Naomi: “Teu povo será o meu povo e teu D'us o meu D'us12.” Ruth era não-judia por nascimento. Moshê era não-judeu por criação. Mas ambos souberam, quando viram sofrimento e se identificaram com o sofredor, que não poderiam fugir.

Rabino Joseph Soloveitchik chamou isso de um pacto do destino, brit goral. Está no coração da identidade judaica até hoje. Há judeus que acreditam e aqueles que não acreditam. Há judeus que praticam e há judeus que não o fazem. Mas na verdade há poucos judeus que, quando seu povo está sofrendo, conseguem sair dizendo: “Isso não tem nada a ver comigo.”

Maimônides, que define isso como “separar-se da comunidade”, diz que é um dos pecados pelos quais lhe é negada uma parte no Mundo Vindouro. É isso que significa a Hagada quando fala do filho perverso que “porque ele se exclui do coletivo, nega um princípio fundamental da fé.” Qual princípio fundamental da fé? A fé no destino coletivo do povo judeu.

Quem sou eu? Perguntou Moshê, mas em seu coração ele sabia a resposta. Eu não sou Moshê o egípcio, ou Moshê o midianita. Quando vejo meu povo sofrer eu sou, e não posso ser outro, que Moshê o judeu. E se isso impõe responsabilidades sobre mim, então devo carregá-las. Pois eu sou quem eu sou porque meu povo é quem ele é.
Esta é a identidade judaica, então e agora.

NOTAS
1. Shemot 3:13
2. Shemot 3:11
3. Yeshayahu 6:5
4. Yirmiyahu 1:6
5. Samuel II, 7:18
6. Rashbam sobre Bereshit 32:23
7. Shemot 2:19
8. Shemot 2:10
9. Shemot 7:7
10. Shemot 2:22
11. Shemot 2:11
12. Ruth 1:16
Lord Rabino Jonathan Sacks, antigo Rabino Chefe da Grã-Bretanha e da Comunidade Britânica, além de famoso escritor e palestrante sobre Chassidismo. É fundador e diretor do Meaningful Life Center (Centro para uma Vida Significativa).
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Discussão (1)
17 Dezembro, 2013
Para quem conheçe o âmago do povo judeu, sua sabedoria, sua alma, o antissemitismo é repulsivo. O sofrimento que causa ao povo judeu pode suscitar empatia e até solidariedade, mas para haver um Pacto do Destino (Brit Goral), é preciso, a meu ver, algo mais, é preciso ocasionar o que disse um poeta brasileiro: "o amador se torna a coisa amada".
Samua de Brito Paiva
Rio de Janeiro/RJ
beitlubavitchrio.org
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